Recebidos pelo embaixador Adalnio Senna Ganem, cônsul-geral do Brasil em Miami, e pelo cônsul-adjunto Eduardo da Rocha Galvão (posteriormente o conselheiro Rodrigo Fonseca do Setor Comercial do Consulado juntou-se ao grupo), pudemos constatar pessoalmente o dinamismo da representação diplomática brasileira em Miami nas relações comerciais entre Brasil e Flórida. Não à toa, uma vez que o Brasil responde por cerca de 1/3 do volume de negócios exteriores para o estado, o que representa, em números, mais de $20 bilhões em investimentos. A parceria estende-se a outros segmentos importantes, como turismo e imóveis. Também pudera: segundo estimativas do próprio Itamaraty, de 350 mil a 400 mil brasileiros vivem no estado da Flórida, e os brasileiros estão entre os estrangeiros que mais investem no mercado imobiliário do estado. Nossa conversa foi no oitavo andar da sede do Consulado-Geral, em Coral Gables, onde no térreo funciona o atendimento ao público.

BizBrazil Magazine – Em termos de negócios, qual a participação do Brasil na área de comércio da Flórida?

Adalnio Senna Ganem – Somos o parceiro comercial mais importante da Flórida, com volume de negócios que supera $20 bilhões de investimentos, perfazendo 1/3 do total de investimentos externos registrados. Empresas brasileiras já investiram mais de $30 bilhões nos setores industrial, produtivo, financeiro e agribusiness, entre outros. Inclusive fechamos uma parceria com a Universidade da Flórida (UF), que se incumbiu de fazer o levantamento completo de valores investidos e da porcentagem destinada a cada setor. E também de quantas empresas brasileiras estão radicadas no Estado.

BBM: Você tem ideia do número de empresas brasileiras presentes aqui? E onde elas mais investem?

ASG: Temos informação de que há mais de cinco mil companhias brasileiras operando aqui. As principais áreas de atuação são imóveis, finanças, aviação, construção civil, alimentos processados e agribusiness.

BBM: Houve um refluxo neste montante devido à crise?

ASG: Sim, porém não foi tão significativo. Para se ter uma ideia, em 2014 foram investidos $20 bilhões, conforme mencionamos. Já em 2015, reduziu-se para $18,6 bilhões; em 2016, caiu para $18,2 bilhões. No entanto, em 2017, embora não tenhamos ainda os números fechados, já sabemos que o valor total voltou a subir graças à recuperação econômica registrada no Brasil.

BBM: Como o governo estadual vê a presença brasileira na Flórida?

ASG: Sem dúvida, com bastante euforia. O governador Rick Scott tem sido um parceiro e apoiador das iniciativas brasileiras em todos sentidos. Ele consegue ter a noção exata do que o Brasil representa economicamente em termos de América Latina e mesmo de mundo.

Setor imobiliário da Flórida depende bastante dos brasileiros, segundo embaixador

Setor imobiliário da Flórida depende bastante dos brasileiros, segundo embaixador

BBM: Claro que o setor imobiliário é um capítulo de destaque dentro deste contexto, não?

ASG: Sem dúvida. Em 2015, os brasileiros injetaram $2 bilhões no setor imobiliário da Flórida, e ficamos em 1º lugar. Ainda somos os principais compradores de imóveis na Flórida juntamente com russos e moradores do Reino Unido. Interessante notar que os britânicos se interessam mais por imóveis na região de Orlando. Atualmente, os russos tornaram-se os maiores compradores, porém os brasileiros continuam investindo significativamente em imóveis na Flórida.

BBM: Ouvi dizer que vale a pena investir em Orlando por ainda ser uma área em expansão. É verdade?

ASG: Sim. Orlando e Tampa são duas áreas que estão crescendo muito e vem rivalizando-se na atração de investimentos, tanto internos como externos. Os segmentos mais procurados são area médica, serviços, turismo e esportes. Também Fort Lauderdale vem experimentando um crescimento expressivo. Hoje, a Flórida tem uma percepção diferente daquela de 20 ou 30 anos atrás. Não se restringe apenas a parques temáticos e praias. Está entre os estados mais ricos do país e Miami, por exemplo, se tornou uma cidade trendy, onde as pessoas querem morar.

BBM: Essa percepção também chegou ao Brasil, ao que parece…
ASG: Perfeitamente. Atualmente, é possível verificarmos ter mudado o perfil dos brasileiros que vêm para cá. São empresários, profissionais liberais, executivos… Miami, como já citamos, também elevou seu padrão por influência dos brasileiros. Nossa comunidade é bastante respeitada. Agora, vemos que muitos empresários implantam suas empresas aqui e voltam a morar no Brasil, porém suas empresas continuam funcionando normalmente. Daí pode-se ver a maturidade dos novos imigrantes brasileiros que escolhem a Flórida para viver e para investir.

BBM: O consulado estima que vivam na Flórida entre 350 e 400 mil brasileiros. Como vocês chegaram a este número?

ASG: Os números gerais apontam que cerca de 1,5 milhão de brasileiros moram nos Estados Unidos. Inclusive, o Censo confirmou que na Flórida vivem mais de 120 mil brasileiros. Como temos 23% da população de brasileiros, estimamos esta quantidade.

BBM: O Consulado-Geral do Brasil em Miami deve ter muito trabalho.

ASG: Com certeza. Hoje, somos o maior consulado brasileiro em tamanho e movimento, pois temos de atender a essa população – de 350 a 400 mil brasileiros – e também aos estrangeiros, empresários e turistas que vêm para cá de férias. Pior, tivemos redução de pessoal e nosso serviço aumentou cerca de 30%. Por isto, implantamos o sistema de agendamento prévio, para evitarmos o clima de mau humor que vinha tomando conta das pessoas, que ficavam cansadas de esperar pelo atendimento no saguão. Às vezes, as pessoas perdiam a paciência e começavam a se exaltar. Para se ter uma ideia, 1,5 milhão de brasileiros visitam a Flórida anualmente. Somos o país que mais envia turistas para cá, à frente do Reino Unido e Canadá, outras nações com muitos turistas. Tudo isso significa mais trabalho para nosso pessoal de atendimento.

Turistas brasileiros impulsionam o setor turístico  da Flórida

Turistas brasileiros impulsionam o setor turístico da Flórida

BBM: Por falar em turistas, porque o turismo no Brasil não decola?

ASG: Esse é um aspecto que devemos melhorar. Sou muito amigo de Vinicius Lummertz, presidente da Embratur (Empresa Brasileira de Turismo) e sei que ele está empenhado em aumentar o número de turistas estrangeiros que visitam o Brasil. Ele está até mesmo preocupado, porque a Argentina assumiu a liderança em visitantes estrangeiros na América do Sul, com 6,6 milhões de turistas, seguida pela Colômbia, com 6,5 milhões e pelo Brasil com 6 milhões. Temos procurado ajudar, inclusive com adoção do visto eletrônico para facilitar a obtenção do visto. Devemos também levar em conta que somos um país de dimensões continentais, e por isto o turismo doméstico é muito forte, o que leva a um certo comodismo. Porém, acho importante incrementarmos o turismo entre os estrangeiros.

BBM: Como o Setor Comercial (SECOM) do Consulado-Geral do Brasil em Miami pode ajudar os empresários brasileiros e americanos?

ASG: O Setor Comercial atua em coordenação com APEX (Agência de Promoção de Exportações e Investimentos). Temos uma linha de ação direta com a realização de eventos e palestras e atuamos em conjunto com quatro entidades de apoio: BACCF (Câmara de Comércio Brasil USA da Flórida – a maior câmara binacional do país, com mais de 800 membros e sediada em Miami), BBG (Brazilian Business Group, que concentra seus esforços nos pequenos e médios empresários, atuando nos condados de Broward e Palm Beach), CFBACC (Câmara de Comércio Brasileiro da Flórida Central, com sede em Orlando) e Brazil-Florida Business Council, Inc (Conselho de Negócios Brasil Flórida, com sede em Tampa). Há ainda uma série de plataformas de atuação diferenciadas.

BBM: Você poderia dar um exemplo?

ASG: Nosso objetivo é gerar negócios. Atualmente, somos o SECOM mais atuante do mundo. Um exemplo foi elaboração da cartilha “Como Empreender na Flórida”, destinada a pequenos e médios empresários e também àqueles que estão interessados em se tornar franqueados de marcas consolidadas. Só para se ter uma ideia, somente em Pompano Beach há 450 empresas de brasileiros ou ligadas a brasileiros.

BBM: Em termos globais, os EUA são o país que mais recebe investimentos?

ASG: Sem dúvida. Se somarmos Miami, New York e Atlanta, o montante de investimentos é bastante expressivo. Outos SECOM que merecem destaque são os de Milão e Berlim, na Europa, e Cidade do México, Santiago, Bogotá, Buenos Aires e Lima, na América Latina, além de Tóquio e Nova Delhi/Mumbai, na Índia.

BBM: O consulado tem notado interesse de companhias americanas em investir futuramente no Brasil após as eleições?

ASG: Algumas já estão investindo atualmente, enquanto outras estão esperando a definição das eleições para entrarem mais forte. A verdade é que está havendo um ciclo positivo no Brasil. Mesmo com a política em uma fase de indefinição, pode-se constatar que a economia está estável e vem apresentando crescimento. A CNI havia projetado crescimento de 0,8% em 2017 e o PIB fechou em 1,3%. Para este ano, as projeções indicam crescimento acima de 3%. Além do mais, nenhum país do mundo tem feito a devassa que estamos fazendo com políticos e empresários poderosos sendo presos. A maioria não faz nada, e isto inclui até mesmo países desenvolvidos. Isto demonstra a solidez de nossa democracia, pois, apesar da corrupção, temos tudo funcionando normalmente: Executivo, Legislativo, Judiciário, imprensa livre. Claro que isto acarreta um prejuízo colateral, com alguns países vetando as empresas brasileiras de participar de licitações, como se apenas elas fizessem jogo duplo.

BBM: A Odebrecht, por exemplo, é uma empresa bastante eficiente, como podemos notar aqui na Flórida, com suas obras.

ASG: Fui cônsul no Panamá e sou testemunha da atuação da Odebrecht lá. O governo era desenvolvimentista e trabalhou em consonância com a Odebrecht. Posso te garantir que a Odebrecht mudou o perfil da Cidade Panamá. Quando for inaugurado, o aeroporto da capital será o segundo maior da América Latina, atrás apenas de Guarulhos, em São Paulo. Além disso, fez obras no Aterro, alterando o panorama do centro da cidade e atraindo construções de alto padrão.

BBM: Você considera que privatizações e PPPs (Parcerias Público Privada) podem atrair empresas americanas?

ASG: Já está havendo um investimento maciço em infraestrutura, que está exigindo US$ 80 bilhões – o maior da história! E as privatizações e PPPs têm tido reações bastante positivas, sobretudo na área de transportes. O governo americano está fazendo estudos de viabilidade para investir forte no Brasil.
BBM: Como os estrangeiros avaliam a força de trabalho dos brasileiros?

ASG: De maneira bem positiva. Os brasileiros são vistos como trabalhadores qualificados, com facilidade de aprendizado e afáveis. 

BBM: Quais pontos considera favoráveis e desfavoráveis para o Brasil atrair mais investimentos externos?

ASG: O que prejudica o Brasil são principalmente três fatores: Custo-Brasil, legislação tributária complicada e infraestrutura precária. O que ajuda o Brasil é um conjunto de fatores, como diversidade econômica, diversidade cultural, mão de obra qualificada, ausências de conflitos, afabilidade e democracia estável, além dos inúmeros setores onde é possível investir.