*Por Antonio Tozzi

Trabalhar para o melhor atendimento possível aos brasileiros, apoiar as atividades culturais da comunidade e participar efetivamente de suas iniciativas são os objetivos principais do embaixador João Mendes Pereira, o novo cônsul-geral do Brasil em Miami. Em sua primeira missão como titular de um consulado no Exterior, ele quer garantir o alto padrão de atendimento aos conterrâneos, pois sabe que embaixadas e consulados são pontos de convergência para compatriotas em terras estrangeiras. João Mendes nos recebeu para uma entrevista no seu gabinete do terceiro andar do edifício onde funciona o Consulado, em Coral Gables.

Nesse bate papo com João Mendes, reparamos uma cordialidade informal aliada ao rigoroso espírito de dever. Alto, corpulento e cheio de vitalidade, este brasiliense de 53 anos e torcedor do Flamengo sente ter chegado o momento de deixar sua marca no Itamaraty, onde está há cerca de 30 anos.  

Durante a conversa, passeamos por temas agradáveis e outros nem tanto. O cônsul, porém, não se furtou a responder e ainda fez questão de explicar detalhadamente cada ponto a fim de dirimir algumas imprecisões.

Para começar, a pergunta inevitável: a estrutura do Consulado-Geral do Brasil em Miami é a ideal? João Mendes admite haver carência de mão de obra, e por isso mesmo está abrindo um edital para contratação de mais funcionários, além de substituir aqueles cujo desempenho não foi considerado satisfatório. Neste caso, são funcionários contratados localmente que trabalham no consulado para atender a todo tipo de solicitação, da renovação de passaporte ao registro de novos cidadãos brasileiros nascidos fora do Brasil, como é o caso dos filhos e filhas de brasileiros, que são americanos por terem nascido em solo americano mas brasileiros por hereditariedade. E há ainda outros serviços, como procurações, certidões etc.

Há sete diplomatas de carreira servindo no consulado, distribuídos pelos setores comercial, cultural e de atendimento ao público. Eles são trocados periodicamente, porque acabam transferidos para outros consulados e embaixadas espalhados pelo mundo, ou retornam ao Itamaraty, em Brasília, para cumprir outras missões.

O atendimento é bom ou ruim?

João Mendes faz questão de esclarecer que assumiu o comando do consuladoa representação diplomática brasileira de maior movimento em todo mundo – em um período turbulento, entre o primeiro e segundo turno das eleições gerais do ano passado. Ele e sua equipe mal tiveram tempo de montar um plano de trabalho, pois a premência do tempo desviou a atenção para a montagem da estrutura eleitoral para o segundo turno, já que cerca de 30 mil brasileiros residentes da Flórida estão cadastrados no Consulado para votar nas eleições presidenciais. João Mendes assumiu exatamente durante o período entre os dois turnos da eleição que acabou elegendo Jair Bolsonaro.

Paralelamente a isso, o serviço consular não parou. O que havia parado, ou pelo menos estava mais lento, era o atendimento de consultas prévias, agendadas através do site do consulado. O objetivo de agendar as consultas antecipadamente é para evitar a superlotação da sala de espera, no térreo do edifício onde funciona o consulado, e o consequente mau humor decorrente da espera demorada.

“Para resolver este problema, tive de despachar o responsável pela TI do consulado para Brasília, a fim de encontrar uma solução rápida e eficiente”, comentou Mendes.

Ele decidiu ainda permitir que pessoas sem agendamento possam ir ao consulado em função de imprevistos: “Temos de reconhecer que há brasileiros, sobretudo os mais idosos, que não têm acesso à Internet ou têm dificuldade para manejar o sistema. Além disto, não é incomum o caso de turistas brasileiros que são roubados ou perdem documentos e precisam urgentemente de uma autorização para retornar ao Brasil”.

Embora reconheça que algumas críticas à morosidade do consulado sejam procedentes, ele admite que muita gente critica sem nenhum fundamento, até por desconhecer as limitações das funções consulares. Um exemplo é o fato de parentes exigirem às vezes que o consulado seja responsável pelo traslado do corpo de algum brasileiro falecido para o Brasil. Na verdade, o consulado funciona somente como um cartório, emitindo os documentos burocráticos necessários.

Relacionamento com o atual ministro das Relações Exteriores

O Consulado-Geral do Brasil em Miami, assim como seus congêneres, representa o governo brasileiro na região que abrange Flórida, Porto Rico e Ilhas Virgens Americanas. Isto significa não apenas o relacionamento com as autoridades locais, mas sobretudo apoio à comunidade brasileira, que na Flórida é bastante numerosa. Falar em números é sempre incerto, pois um percentual considerável de brasileiros vive ilegalmente no país e compreensivelmente faz questão de ficar longe do radar. Mas, de acordo com as projeções, este número situa-se em torno de 370 mil compatriotas, de um total estimado de 1.5 milhão que vivem nos EUA. Portanto, dá para imaginar a responsabilidade do consulado para atender uma população equivalente a uma cidade média.

Por ter sido colega de turma no Instituto Rio Branco do atual ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, João Mendes revelou já ter conversado com Araújo sobre as atribuições do Consulado-Geral do Brasil em Miami. Os dois fazem parte de uma nova geração de diplomatas que está começando a ocupar postos-chave no Itamaraty. Araújo foi peremptório: “João, faça o melhor para atender os brasileiros que vivem aí na Flórida e os que forem ao estado a negócios ou turismo”, conta Mendes.

Indagado sobre o que pensa da nova política externa implementada por Araújo e pelo presidente Jair Bolsonaro, o cônsul-geral do Brasil em Miami foi pragmático: “Não cabe a nós discutir visões sobre o que é melhor ou pior. A verdade é que a população brasileira votou a favor de um programa preconizado pelo presidente e isto vem sendo implantado”, asseverou.

Particularmente, ele vê como positivas algumas ações tomadas no âmbito internacional, principalmente o acordo de salvaguarda da base de lançamento de foguetes de Alcântara e a suspensão da exigência de visto para turistas do Canadá, Japão, Austrália e Estados Unidos. Segundo o diplomata, a Embratur já detectou um aumento de aproximadamente 90% no desejo de turistas destes países em conhecer o Brasil. “Isto significa uma mudança de paradigma e deve compensar com lucros a perda da receita decorrente do fim da taxa de processamento do visto para os turistas”, assegurou.

O embaixador acredita que as reformas previdenciária e tributária devem recolocar o Brasil no trilho do crescimento e retirar a economia do marasmo que tomou conta do Brasil nos últimos anos. Dessa maneira, no prazo de dois anos, segundo ele, o Brasil deverá entrar em um círculo virtuoso. Ele apenas não se mostra favorável à guerra comercial entre Estados Unidos e China, pois isto pode prejudicar o comércio mundial como um todo. Com relação ao estreitamento de relações com Israel, João Mendes acha que isto não afastará necessariamente os países árabes, grandes compradores de produtos avícolas brasileiros. “Tudo depende das negociações. É um jogo de peso e contrapeso. O mesmo ocorre em relação à China. Estar alinhado com os Estados Unidos não significa entrar em guerra com a China, um grande investidor no Brasil”, analisou.

Consulado como agente para o incremento de negócios

Além das funções cartoriais, o cônsul tem atribuições importantes em outras áreas. No Setor Cultural, ele faz questão de prestigiar todas iniciativas idealizadas por artistas e promotores culturais brasileiros. Por isso é comum vê-lo em shows, exposições e eventos envolvendo nossos compatriotas. Até porque cultura também gera negócios.

Por falar em negócios, a presença dele e da equipe do Setor Comercial é fundamental no incremento dos negócios entre Brasil e Flórida. Só para se ter uma ideia do poderio econômico da Flórida, o estado americano recentemente superou a marca de $1 trilhão em geração de negócios, algo que o colocaria como o 10º país mais rico do mundo. Não é à toa o fluxo constante de brasileiros para cá e o crescente interesse em exportar. “Recebemos duas mil consultas por mês. Claro que nem tudo se refere a exportações, mas fica demonstrado o interesse na Flórida e no comércio exterior”, revelou o embaixador, e complementou: “O empresário tem de estar consciente de que comércio exterior deve ser um segmento de sua companhia e ter um departamento estruturado para isto, e não servir como muleta”.

O Setor Comercial trabalha de maneira estreita com APEX e com o Banco do Brasil no sentido de estimular as exportações de bens e serviços para a Flórida, e a participação do Consulado-Geral do Brasil em Miami é fundamental neste quesito. “Muitas vezes temos de interceder para que sejam liberadas mercadorias ou documentações que impedem o desembarque dos produtos aqui. Esta é mais uma de nossas atribuições que o público brasileiro menos informado desconhece”, afirmou João Mendes.

Com todo esse empenho e dedicação, o Consulado-Geral do Brasil em Miami está certamente bem servido com seu novo titular, e os brasileiros podem ficar com a certeza de estar amparados. Isto é ainda mais positivo, pois a comunidade brasileira é vista pelas autoridades da Flórida como ordeira e cumpridora de deveres. E o perfil dos brasileiros que estão adotando o estado americano como lar vem melhorando ainda mais com a chegada constante de jovens empresários, executivos e investidores.