Victor Missiato*

Em recente pesquisa divulgada pelo movimento Renova BR e pelo Instituto Locomotiva, 72% dos brasileiros consideraram a democracia como melhor forma de governo. Aproximadamente, três em cada quatro brasileiros advogam em favor do sistema democrático em detrimento de outros regimes, apesar de seus problemas. Maior ainda é o número de cidadãos (84%) que acreditam ser o voto um exercício político capaz de fazer a diferença.

Em contraposição a este resultado, diversas são as análises que atestam a precariedade da cultura política democrática no Brasil. Desde Oliveira Vianna e Sergio Buarque de Holanda, que afirmou ser a democracia um “mal-entendido” no país, diversos são os intelectuais, à esquerda e à direita, que atestam para a inexistência de uma cultura democrática no país. Autoritarismo, populismo, golpismo, entre outros conceitos, são utilizados para descrever a cultura política brasileira, bem como seu sistema político. Normalmente, essa descrença costuma vir de analistas militantes, muitas vezes engajados em seus projetos. Quando o PT estava no poder, a grande mídia, o STF, a Polícia Federal, Forças Armadas, Lava Jato e o Congresso passaram a ser vistos como agentes golpistas que pretendiam derrubar a democracia popular. Por outro lado, com Bolsonaro no poder, novamente a grande mídia, o STF, Sérgio Moro, Rodrigo Maia, parte da elite militar, são vistos como atores antidemocráticos.

Distante desta ineficaz verborragia intelectual, encontra-se o cotidiano popular e seu convívio com a democracia. Gestada a partir de diferentes regimes políticos, a democracia brasileira não nasceu em 1946 ou 1988. Suas raízes encontram-se em diferentes terrenos. Por mais paradoxal e polêmico que possa ser, foi a escravidão brasileira quem produziu sua força antagônica, a ideia de liberdade no Brasil. Se os indígenas já possuíam seu complexo sistema social e os portugueses sempre defenderam sua Coroa, foram os escravos quem organizaram as primeiras experiências democráticas no país. Assim como os protestantes nos EUA, que fundaram a democracia ao Norte, os escravos brasileiros aportaram aqui sem a esperança da volta à sua terra natal. Exilados de suas sociabilidades próprias, os escravos tiveram que construir diariamente o exercício do sincretismo, da tolerância e da resistência.

Ambas as democracias se desenvolveram com a chegada de imigrantes de todas as partes do globo entre os séculos XIX e XX. Conviver com diferentes nações em um só país moldou a identidade social desses dois países. Embora a Klu Klux Klan e o partido nazista brasileiro, segundo maior do mundo na época, simbolizem um determinado histórico nos EUA e Brasil, ainda irritantemente racistas e violentos até hoje, é difícil projetar nações continentais tão multiétnicas quanto esses dois países.

Não se trata aqui de defender o conceito de “democracia racial”, tão mal utilizado em décadas passadas. Nosso intuito aqui é analisar o distanciamento que existe entre análises intelectuais e soberania popular no Brasil. Claramente, há um distanciamento de percepções, visto que nossa ordem institucional se mantém vigente e, em 2022, teremos um novo pleito eleitoral. Novamente, caberá ao povo brasileiro escolher, livremente, seus representantes estaduais e nacionais. A responsabilização de suas escolhas é algo que pertence unicamente a sua própria liberdade, tão duramente conquistada nos séculos XIX e XX.

*Victor Missiato é doutor em História, professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Psicossociais sobre o Desenvolvimento Humano (Mackenzie/Brasília) e Intelectuais e Política nas Américas (Unesp/Franca).

Sobre a Faculdade Presbiteriana Mackenzie

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