A prática da Câmara de Comércio Brasil EUA da Flórida – BACCF – em realizar almoços-palestras tem se revelado proveitosa para os membros da maior câmara binacional da Flórida. No final de fevereiro, o palestrante convidado foi o economista Gesner Oliveira e sua exposição reuniu muitos participantes, que foram ao Coco Bambu, em Miami Beach, para ouvir seus prognósticos.

Em sua exposição “Ano eleitoral: desenvolvimentos atuais, tendências e desafios da economia brasileira”, ele abordou a questão de nosso país sob três aspectos: cenário político, evolução da economia e oportunidades de negócio.

No cenário político, Gesner comentou as recentes pesquisas eleitorais que apontam a liderança de Lula (que pode ficar inelegível após sua condenação em segunda instância) e de Jair Bolsonaro, entretanto, frisou que o panorama eleitoral está bastante indefinido e deve ser decidido no segundo turno, marcado para 28 de outubro.

O palestrante enalteceu a Operação Lava Jato por obrigar as corporações brasileiras a melhorarem suas responsabilidades e a dar mais atenção à área de compliance – conformidade com leis e regulamentos internos e externos. “Está-se espalhando responsabilidade pelo Brasil”, citou, embora reconheça o alto grau de ceticismo que tomou conta do povo brasileiro.

Sobre o desempenho econômico, Gesner destacou que a economia está indo bem e tem mostrado recuperação após o período de maior recessão enfrentado pelo país nos anos 2015 e 2016. Ele credita esta recuperação a dois fatores: à boa condução da equipe econômica do atual governo e ao crescimento global da economia. De acordo com as previsões, o Brasil deve crescer 3,2% em 2018 – muito aquém do crescimento previsto para China e Índia, mas bem melhor do que os índices negativos registrados recentemente.

Em relação ao futuro, o economista não tem dúvida em afirmar que o Brasil surge como um grande player mundial, uma vez que há muito para se investir na infraestrutura, atualmente bastante precária e com um campo vasto para crescer.

Além disso, as possibilidades de privatização de empresas estatais e as PPP (Parcerias Público-Privadas) podem transformar-se em geradoras de riqueza e consequentemente melhorar o ambiente econômico, ao se tornarem fontes de pagamento de impostos e contratação de mão de obra, ajudando a diminuir o índice de desemprego da massa trabalhadora. “Claro que o mercado de trabalho tem tido crescimento gradual e precisará de tempo para produzir os resultados desejados”, destacou o palestrante.

Recuperação econômica

Gesner avaliou que a economia brasileira está indo bem no curto prazo, apesar do desafio fiscal a médio prazo. “O setor externo tem ajudado na recuperação em virtude das expectativas otimistas para os países desenvolvidos”, afirmou o economista. “Apesar da volatilidade, a alta liquidez e o crescimento global aumentaram as perspectivas para os ativos dos mercados emergentes e também os preços da commodities. O desafio agora é transformar esta recuperação em crescimento sustentável depois da pior recessão da história brasileira”, complementou.

Dados mais recentes confirmam essa recuperação, segundo estudos publicados na newsletter da GO Associados. O IBC-BR, calculado pelo Banco Central, cresceu 1,4% em 2017 e as projeções indicam que o Produto Interno Bruto (PIB) para 2018 será de 3,2%.

O indicador de difusão da atividade econômica da GO reflete a mesma tendência, mostrando que 80% das 35 séries acompanhadas pelo indicador registraram expansão no quarto trimestre. Este número é o mesmo no trimestre encerrado em novembro e acima da média do período entre janeiro de 2005 e dezembro de 2017 (60,7%).

Os dados sugerem que o PIB cresceu 0,4% no quatro trimestre em comparação ao trimestre anterior, levando a uma expansão de 1,1% em 2017. Indicadores anteriores divulgados em janeiro, tais com vendas de automóveis e produção de papelão, por exemplo, trazem números positivos, sugerindo que a economia continua a expandir no primeiro trimestre.

O principal risco é o cenário externo, mas a volatilidade dos mercados americanos, por ora, parece refletir mais uma correção de preço do que uma nova crise. As dificuldades domésticas devem ganhar peso assim que o cenário eleitoral estiver mais definido. Entretanto, devido à demora do PIB em responder às condições financeiras, um stress eleitoral deve ter um impacto negativo na atividade no final de 2018 e aumentar de intensidade em 2019. No momento, a recuperação continua, porém, o desempenho econômico é incerto a médio prazo.

Atualmente é possível sentir o aumento do índice de confiança do consumidor com o crescimento de bens financiados, por exemplo, entretanto, a probabilidade de não aprovação da reforma previdenciária pode tornar-se um empecilho para o clima de otimismo, assim como a recuperação lenta do mercado de trabalho que pode server de combustível para um clima mais hostil.

Com a continuidade da política monetária expansionista, as dívidas das famílias têm caído enquanto a concessão de créditos foi retomada. A balança comercial, por sua vez, registrou um número expressivo de superávit em 2017: US$68 bilhões, e deve continuar em alta, com as projeções apontando superávit de US$ 55 bilhões para este ano.

Esses indicadores espelham o crescimento maior da economia mundial e recuperação de alguns países da América Latina, como Argentina. “Portanto, superávit primário e nível estável de débito devem ser esperados para a próxima década, se considerarmos a manutenção da Regra do Limite de Gastos nos próximos 20 anos”, frisou o palestrante.

Investimentos em infraestrutura

No boletim informativo da GO Associados, há uma avaliação acurada de Leonardo Barreto, da Factual Análise, sobre privatizações – um tema mais controverso que costuma ser evitado por parlamentares às vésperas das eleições. Mesmo com maioria no Congresso, deputados e senadores não estão inclinados a votar a reforma da Previdência Social.

Como a proximidade eleitoral não remove a crise fiscal do país, que fechou 2017 com déficit primário de R$ 124 bilhões, o governo continuará a apoiar iniciativas que propiciem alívio na conta corrente, atraiam investimentos e preservem a confiança do mercado. Neste contexto, o Programa de Investimentos com Parcerias (PPI) ganha importância.

O processo de venda de ativos e concessões em infraestrutura está dividido. Há iniciativas que não dependem de decisões políticas porque já estão consolidadas num cenário legal. Porém, há projetos que ainda se encontram no estágio inicial e precisam ser aprovados pelo Congresso Nacional.

Pesquisa realizada pela Factual Informação com 190 deputados mostra que os parlamentares preferem o modelo PPP (Parceria Público Privada) do que as privatizações. De acordo com a pesquisa, enquanto o modelo de PPP alcançou 7,3 em uma escala de 0 a 10 como importante para o desenvolvimento do país, as privatizações situaram-se em 5,3, confirmando que ainda há resistência por parte do Congresso com o modelo de privatizações.

A joia da coroa é a privatização da Eletrobras, com a qual o governo espera arrecadar US$ 4 bilhões ainda em 2018. Trata-se da maior empresa do setor elétrico na América Latina. O modelo de privatização criado pelo governo ainda está em estágio inicial e foi constituída, em 20 de fevereiro, uma comissão especial para avaliar a venda da companhia. Embora 57% dos entrevistados tenham dito que a Eletrobras será privatizada, 50% dos congressistas são contrários à ideia, enquanto 46% defendem sua privatização.

Todavia, a Eletrobras não é a única que está no radar dos investidores. O programa de investimento em infraestrutura poderá gerar R$ 435 bilhões para o PIB do país, propiciando R$ 28 bilhões em recolhimento de impostos e gerando 8,3 milhões de empregos cujos salários devem chegar a R$ 73,6 bilhões.

“A falta de infraestrutura brasileira é ao mesmo tempo uma tragédia e uma excelente oportunidade de negócios”, afirmou Gesner. Afnal, há muito por se fazer. Enquanto o Brasil investiu apenas 2% do PIB neste setor, a China investiu 8,6% e a Índia 4,30%. Investidores podem canalizar recursos para obras de água e saneamento básico, transportes (rodovias, ferrovias, portos e aeroportos), usinas…. É importante destacar também que nem tudo depende do governo federal. Há várias obras que estão no âmbito dos estados, portanto, dependem apenas dos governadores e das assembleias legislativas.

Ou seja, o Brasil pode confirmar, ou não, que é realmente o país do futuro!

Gesner de Oliveira é sócio-diretor da GO Associados e professor de Economia na Fundação Getúlio Vargas. Ele foi ainda presidente da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), entre 2006 e 2010, comandou o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) duante dois mandatos (1196-2000) e foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda em 1995 e integra o conselho de várias empresas certificadas pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Formado pela Univesidade de São Paulo (USP), com mestrado na Unicamp, Gesner obteve doutorado em Economia na Universidade da Califórnia (Berkeley) e foi professor visitante da Columbia University em 2006, aqui nos EUA.