“Navegar é preciso

Viver não é preciso”

Esses versos antológicos do poeta português Fernando Pessoa são demasiadamente conhecidos, mas não representam a realidade de uma parcela ínfima da população mundial que tem tudo à sua disposição, inclusive os iates mais caros do mundo.

Em um rearranjo, poderíamos parafrasear Pessoa desta maneira:

“Navegar é preciso

Viver (muito bem) é mais do que preciso”

Realmente, singrar os mares próximos das orlas a bordo de iates luxuosos é algo que bem poucas pessoas no mundo podem fazer. Para ser mais exato: apenas 0.003% da população mundial.

A fim de saber um pouco mais sobre este clube exclusivo dos super ricos, BizBrazil Magazine conversou com Flavio Valerio Constantino, brasileiro que atua como Sales Broker de iates de luxo no mundo todo. Em setembro, ele estará em Mônaco na feira de iates de luxo.

Ele trabalha na Camper & Nicholson, uma das maiores empresas deste setor. E bem tradicional também. Fundada em 1782, fabricava veleiros de transporte na Grã Bretanha e foi assim durante mais de um século.

Após a segunda guerra mundial, a empresa desenvolveu barcos de lazer e consolidou seu nome devido à qualidade de seus produtos.

Flavio Constantino é o único brasileiro que atua neste restrito segmento dos ultra ricos
Flavio Constantino, brasileiro que atua neste restrito segmento dos ultra ricos

Em 1960, ela foi vendida e introduziu em seu portfólio a fabricação de barcos a motor. “A partir daí, a Camper & Nicholson cresceu muito e terceirizou sua fabricação. Passamos a atuar mais no setor de serviços”, explicou Constantino.

Por setor de serviços, entenda-se intermediação de compra e venda de barcos; gestão de barcos (a companhia cuida das embarcações para seus donos); gestão de charter (administra a locação de barcos dos proprietários para pequenos grupos), contrata tripulantes, etc.

Paixão de longa data

Formado em Publicidade, Flavio Constantino sempre gostou de náutica. Assim, fazia seus próprios veleiros. Daí, os amigos gostavam e também faziam encomendas. Resumo da ópera: o que era um hobby se tornou uma atividade. Ele decidiu investir nisto e se aperfeiçoou.

Atividades profissionais dele e da esposa, no entanto, fizeram com que o casal se mudasse do Brasil. Viveram um período em Portugal e atualmente moram no Sul da Flórida. Aliás, ele não poderia estar em um lugar melhor, porque Fort Lauderdale é o epicentro do mercado náutico mundial. Não é à toa que o Fort Lauderdale Boat Show no início de novembro atrai gente de todo mundo, sobretudo fabricantes, fornecedores de serviço e compradores.

Embora tenha paixão por veleiros, ele admite que os barcos a motor dominam o mercado. Hoje, o percentual de barcos a motor é de 95%, enquanto os barcos a vela ficam apenas para os aficcionados. O maior fabricante de catamaran, a francesa Fontaine & Pageot, ainda mantém sua clientela.

No universo de iates de luxo os mais vendidos são os de 80 pés. Normalmente, eles usam três marcas de motores: Caterpillar, dos EUA; MTU e MAN, ambos da Alemanha. Volvo Penta está tentando entrar forte neste mercado também. Os preços de um barco de 80 pés variam entre entre $1 e $2 milhões para os usados; e $4 a $5 milhões para os novos. Além de sofisticado, o mercado náutico é bem específico, conforme destacou Constantino: “Barco é como device. É preciso ter conhecimentos básicos para comprar”.

Estaleiros holandeses e alemães são valorizados

A Camper & Nicholson figura entre as quatro e a cinco empresas que se alternam na liderança deste segmento.  O que determina a liderança momentânea é a venda de um barco a mais em relação aos concorrentes. Até porque é um bem de alto valor. “Recentemente, teve um barco de 360 pés que custou $275 milhões!”, comentou o broker brasileiro.

Iates de luxo custam milhões de dólares, como é o caso deste Safira
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Entre os fabricantes, os melhores são os estaleiros da Holanda e da Alemanha. “Eles representam Rolls Royce e Bentley na fabricação de barcos de luxo”, sintetizou Constantino. “Italianos, se tiver um bom project manager, também podem fabricar barcos do nível destes”, completou.

Já os estaleiros americanos vinham perdendo competitividade por causa do custo e da crise de 2007/08 que afetou bastante os EUA. Além disto, os clientes atualmente buscam projetos mais modernos, e os próprios americanos, que sempre foram fãs do estilo de iate clássico, estão acompanhando esta tendência. “O pessoal agora quer um visual que represente mesmo uma casa flutuante”, afirmou o broker.

Apesar da crise, 1/3 dos barcos de luxo estão mesmo nos Estados Unidos ou são comprados por americanos, uma vez que eles respondem por 6% do total dos ultra ricos que vivem no mundo. “O perfil destes compradores de iates de luxo é formado por empresários, altos executivos, herdeiros, enfim, gente que fatura pelo menos $10 milhões/ano, porque é um brinquedinho caro. Além do mais, precisa gostar de água e de lazer, porque a manutenção também é cara. E não se pode dispensar a tripulação”, resumiu o sales broker da Camper & Nicholson. Ou seja, são vendidos para pessoas que já têm tudo, portanto, podem comprar este tipo de barco, que usam durante menos de um mês por ano.

Por usar tão pouco tempo, torna-se uma despesa elevada. “Aí é que entramos, ao fazer administração dos barcos. Mesmo para os ricos, é importante amortizar os custos. Então, alugamos o barco para pequenos grupos, de 12 pessoas, no máximo. Até porque se passar disto teria de se encaixar em outra legislação náutica”, explicou Constantino.

E o custo do aluguel também não é barato. O custo por semana começa em $30 mil para um barco de 80 pés. Porém, o custo total desta semana praticamente dobra, porque o locatário precisa colocar combustível, abastecer o barco com comida e bebida, dar gorjetas para tripulantes, etc. Ou seja, é um lazer realmente reservado para uma elite seleta.

E onde é possível ver estes ultra ricos navegando com seus iates. Flavio Constantino responde: “Mediterrâneo é o paraíso dos iates, mas a partir da Flórida também há muitos locais – leia-se pequenas ilhas – para se visitar na rota para Bahamas e Caribe”.

Como se vê, viver bem é preciso, pena que seja algo reservado para uma pequena parcela da população mundial.