Aquela segunda-feira começou com uma reunião marcada em um escritório na Brickell Avenue, coração financeiro de Miami. Depois de estacionar o carro e subir até o 11º andar, fui recebido por José Carlos Gimenez e sua equipe – Alberto Suannes, Bruno Zurlini e Alice Milagre.

O escritório é bem localizado, mas sem ostentação. Claro que qualquer aluguel na famosa Brickell não custa barato, mas nem poderia ser diferente para marcar a entrada triunfal da primeira empresa de Gimenez nos Estados Unidos.

Veterano, já ouvi várias histórias de empresários de sucesso. Poucas, porém, podem superar a argúcia deste empreendedor carioca que fincou suas raízes em São Paulo e, a partir daí, espalhou seu império pelo planeta. Sua empresa caçula chama-se Alpha Sourcing, com sede exatamente em Miami.

Aliás, abrir empresas é uma das formas que Gimenez encontrou para multiplicar seus ganhos. Atualmente ele possui seis companhias atuando nos mais variados segmentos – e todas bem sucedidas.

A mais recente empreitada é esta empresa americana, Alpha Sourcing. Após algumas tentativas frustradas, o empresário consultou alguns brasileiros que já viviam aqui há muito tempo e descobriu que eles usam os EUA como base e ganham dinheiro negociando pelo mundo. Muitos tentaram fazer negócios aqui e não ganharam dinheiro. Logo, percebeu que brigar nos EUA não é fácil.

Por ser resiliente, Gimenez alterou ligeiramente a rota e focou na China, país para onde vai há 12 anos. Ele já foi sócio de chineses e conhece bem a estrutura, assim como o funcionamento do sistema de incentivos praticado lá. “Isto me deu uma base para entrar no mercado asiático, e o governo dá uma série de incentivos para empresas exportadoras. Com isto, consigo trazer para os EUA o dinheiro mundial. Desta forma, peguei amigos brasileiros que não conheciam o regime de incentivos especiais da China e queriam posicionamento para trazer produtos com seguranca. Foi então que criamos o sistema de sourcing, ou seja, desenvolvemos produtos para clientes brasileiros levar para o Brasil, com percentual de ganho sobre este desenvolvimento. Criamos um desenho no qual colocamos este cliente junto à fábrica, sem a presença da trading, tudo competitivo e pagando o preço real. Assim, o contrato de sourcing vai me dar o percentual de ganho e este dinheiro vem para os EUA através de um contrato de prestação de serviços”, esclarece o empresário.

Alberto Suannes, diretor da Alpha Sourcing, explica melhor a mecânica dessa operação: “Este produto é ganho por performance. Revelamos quem é o fornecedor, não tem overprice nem nada. Nossa proposta é reduzir o custo do cliente na base para ganharmos na performance e, assim, justificar nosso ganho”.

Neste ínterim, surgiu a oportunidade de um cliente no Brasil de importar batatas fritas congeladas da Holanda e da Bélgica. Hoje, o grupo comandado por Gimenez transporta 3.500 contêineres por ano para este cliente no Brasil. Além de batatas, o cliente  importa pescados e carne do Uruguai. Ele esclarece a operação: “Esta empresa começou comigo com dois contêineres, agora é o segundo maior movimentador de batatas do mundo. Como amigo do dono, fiz uma proposta. Ele é um dos maiores clientes dos fornecedores da Bélgica e Holanda. Obviamente tem prazo de pagamento e crédito. Sugeri então que nos tornássemos sócios, sem ele me colocar no negócio e sem eu por dinheiro. A coisa funciona assim. Passamos a usar nossa estrutura daqui dos EUA associada aos prazos e os preços dele. Eu seria investidor ao indicar clientes. Em cada contrato fechado, dividiríamos em 50%. Montamos esta operação, que já rendeu um contrato com uma empresa cubana”.

Alice Milagre comanda Alpha Sourcing em Miami

Alice Milagre coordena Alpha Sourcing em Miami

Recentemente, a Alpha Sourcing, empresa americana do grupo, entrou em negociação com a maior distribuidora de alimentos da Flórida. A companhia é inteiramente bancada por Gimenez. Apesar de estar há três anos em atividade, o empresário está consciente de que a companhia começa agora a se justificar. Embora tenha uma estrutura enxuta, com a negociadora Alice Milagre na coordenação, a companhia tem todo apoio do escritório central da empresa no Brasil.

Além do negócio com as batatas, o sourcing é a grande estrela da logística da companhia. Bruno Zurlini, analista de compras internacional, ficou 40 dias na China para formar banco de dados. Ele explicou que, com implantação deste sistema, é possível ter uma radiografia exata dos fornecedores. “Antes, as empresas brasileiras recorriam ao Ali Baba (a Amazon chinesa) para encontrar os fornecedores. Este sistema é empírico e não permite saber com exatidão quem é de fato o fornecedor. Com nosso sistema de sourcing, temos condições de checar quem tem dívidas, quem usa trabalho escravo, quem é confiável, etc. Enfim, quem está na lista negra do governo”, afirmou Zurlini.

Presença nacional e internacional

Gimenez está presente em vários estados do Brasil, como Santa Catarina, São Paulo, Alagoas e Rondônia, e também tem escritórios na China, nos EUA e no Paraguai.

Ele afirma que seu conhecimento da política tributária no Brasil permite baratear com as operações de importação. Ele se utiliza do regime especial e sua operação começa e termina em Santa Catarina. Isto porque, em vez dos 4% de imposto interestadual cobrado para produtos importados, seu custo é de apenas 1.4%. “Operar por Santa Catarina me dá 25% a menos do que operar por São Paulo. Ganho 2.6%, e negocio com meus clientes um percentual para eles.  Só que isto é positivo para o estado, porque movimento R$330 milhões todo mês, opero 1,400 contêineres por mês, controlo o despacho aduaneiro e realizo 900 despachos por mês”, diz o empresário.

Ele também é especialista na Lei Maquila vigente no Paraguai. A logística do Paraguai para o Brasil pode ser usada através do sistema rodoviário de Santa Catarina. “Posso usar o regime especial nas maquiladoras, as montadoras de produtos. A Lei Maquila determina que 60% dos insumos podem ser importados na confecção de um produto, porém 40% devem ser insumos fabricados no Paraguai. Isto garante o Certificado de Origem. Com este documento, você ganha isenção de importação quando vende para outros países. Há ainda a Lei paraguaia 6090, que concede isenção total de impostos a qualquer maquinário usado que entra no Paraguai, por ser considerado como gerador de negócios industriais”, diz Gimenez.

Além de distribuir, a companhia também está no setor de desenvolvimento de produtos. Bruno Zurlini vai ao Paquistão e Egito a fim de encontrar fornecedores de copos de vidro para grandes redes atacadistas do Brasil.

Já Suannes reitera: “Nosso objetivo é desenvolver produtos aqui nos EUA. E também entrar firme não só na China, mas, também, atender o mercado asiático, como Coreia, Japão e também Oceania. Algo que, aliás, já fazemos. Temos contatos fortes também na Europa. Já temos clientes brasileiros comprando produtos americanos. Queremos expandir isto. Nossa vantagem é estar aqui e operar como empresa americana”.

Para finalizar, Gimenez está criando plataformas financeiras aqui nos EUA. A proposta é garantir injeção financeira para empresas brasileiras que não querem pagar à vista e desejam financiamento. “Tenho uma seguradora que avalia o crédito das companhias tomadoras de empréstimo. Caso o cliente não pague, a seguradora briga com o cliente e ela tem 50 dias para me pagar de volta. Assim, meu risco é zero. Os bancos americanos me permitem emprestar 95% do meu capital e capto dinheiro no mercado americano com juros entre 1,5 a 3% ao ano. Como sou conservador, minhas aplicações geram entre 4 a 6% ao ano. Assim, atendo meus clientes oferecendo crédito de 120 dias e eles me pagam juros de 8 a 10% ao ano. Para atender clientes de pequeno e médio porte que querem comprar produtos, ter dinheiro para investir e, assim, obter fôlego financeiro. Em comparação com os juros cobrados no Brasil, isto acaba sendo um bom negócio para eles”, finaliza o versátil empresário.

Nesse momento, ele diz estar afinando sua equipe. “Durante estes anos, aprendi a delegar. E sempre espero que meus funcionários sejam melhores do que eu. Se forem piores ou iguais a mim, não preciso. Eu mesmo resolvo”, brincou José Carlos Gimenez.