Aquela segunda-feira começou diferente, com a reunião marcada para em um escritório no coração da Brickell Avenue, coração financeiro de Miami. Depois de estacionar o carro e subir até o 11º andar, fomos recebidos por José Carlos Gimenez e sua equipe – Alberto Suannes, Bruno Zurlini e Alice Milagre.

O escritório é bem localizado, mas sem ostentação. Claro que qualquer aluguel na famosa Brickell não custa barato, mas nem poderia ser diferente para marcar a entrada triunfal da primeira empresa de Gimenez nos Estados Unidos.

Veterano, já ouvi várias histórias de empresários de sucesso. Poucas, porém, podem superar a argúcia deste empreendedor carioca que fincou suas raízes em São Paulo e, a partir daí, espalhou seu império pelo planeta. Sua empresa caçula chama-se Alpha KG Company, com sede exatamente em Miami.

Aliás abrir empresas é uma forma que Gimenez encontrou para multiplicar seus ganhos. Atualmente ele possui seis companhias atuando nos mais variados segmentos – e todas bem sucedidas!

De empregado a empresário, a mudança na vida de Gimenez

De empregado a empresário, a mudança na vida de Gimenez
De empregado a empresário, a mudança na vida de Gimenez

Gimenez decidiu mudar para São Paulo e iniciar suas atividades profissionais há mais de 30 anos. Gimenez começou a trabalhar no setor de courier. Inicialmente, na DHL, depois passou para UPS e FedEx. Logo, passou para o segmento de agenciamento de carga, tendo trabalhado nas principais empresas do setor. Por último, esteve na Asia Shipping, se tornando após isso, dono da Brasline agência de cargas.

Neste interim, ele recebeu uma proposta para ser sócio de um empresário chinês, bastante experiente na área de trading company, o qual que gostaria de entrar no segmento de agenciamento de carga. “Como o chinês não tinha experiência nesta área de agenciamento carga e me conhecia, fez o convite para eu assumir a diretoria de sua empresa e me deu uma participação societária.

Como se tornou empreendedor

Após um ano de operações junto à Brasline uma nova oportunidade surgiu, uma vez que Gimenez tinha conhecimentos no segmento de importação de cobre e catodo de cobre do Chile, através de seu contato com o diretor comercial de uma empresa francesa, que gerou a oportunidade de venda no mercado brasileiro para o segmento de energia elétrica.

A maior dificuldade deste projeto era a demanda por parte das empresas brasileiras que necessitavam entre 100 e 1.000 toneladas de cobre todos os meses e, sem capacidade financeira para os pagamentos mensais, se fazia necessário vendas com prazo de 90 a 120 dias.

Por sua vez, as tradings do Espírito Santo que faziam este financiamento para as indústrias de perfilhamentos de fios para rede elétrica exigiam como garantia seus  recebíveis, imóveis e até maquinários para estas empresas financiadoras que eram chamadas de Fundapianas.

O maior desafio era operar com tradings que não tinham possibilidade de financiar mais que duas operações no período de 30 a 60 dias, uma vez que os valores giravam em torno de USD 5.500 Toneladas/Mês.

Questionado pelo diretor comercial da empresa francesa sobre empresas que pudessem financiar as indústrias concedendo prazos de 90 a 120 dias, com suas devidas garantias, decidiu sondar o mercado.

Decidiu então fazer sua lição de casa. Conversou com seus parceiros do ramo de despacho aduaneiro buscando uma alternativa para esta operação.

Um ano depois foi informado por um de seus parceiros da cidade de Santos que uma empresa de alimentos de Goiás havia se interessado pela operação e seu diretor executivo gostaria de conversar com Gimenez sobre o projeto de financiamento para importadoras de cobre.

Nesta reunião, Gimenez observou que aparecia a família do patrono do Banco de Minas Gerais – BMG e faziam parte do grupo Brasfrigo de Alimentos e outras empresas, entre elas uma trading com incentivos de ICMS em Goiás, ou seja, estavam preparados para financiar e utilizar os benefícios fiscais para os clientes de cobre e outros.

Com uma estratégia bem traçada, foi fechado um contrato com o Banco de Minas Gerais – BMG, através de sua Trading chamada Centerpharma, posteriormente rebatizada como Center Trading.

Este foi o momento de maior sucesso para Gimenez, pois neste contrato havia uma cláusula de acordo de exclusividade por um período de quatro anos com o presidente da trading e do banco. O mais interessante era que esta empresa estava no mercado apenas há três meses sem possuir nenhum cliente em sua carteira de negócios.

Nessa época, Gimenez usou seu vasto conhecimento para indicar grandes contas no segmento de importação de cobre para trading do Banco BMG. Após o primeiro ano de operação, o faturamento já estava próximo a 100 milhões/mês, tendo neste período de quatro anos conquistado sua independência financeira.

Apesar do sucesso da Center Trading, o BMG encerrou a parceria por ter decidido investir na importação de commodities, que incluía também aço e alumínio. Assim, eles iam fazer as importações para vender dentro da própria trading. Gimenez manteve o banco como cliente e abriu a KG Line em Mato Grosso e a transferiu para São Paulo e posteriormente a levou para Alagoas a fim de atuar na compra de precatórias.

“Fui para Alagoas usando as precatórias reais. Como minha empresa estava capitalizada, ajudava o estado que não tinha dinheiro para pagar os salários dos servidores. E era tudo dentro da legalidade. Tanto que este contrato era aprovado pela Procuradoria do Estado e ia para minha empresa. De R$ 1 milhão que botavam na minha conta, eu pagava $300 mil à vista para os servidores. Deságio de 70%. Este R$ 1 milhão utilizava como crédito para mim. E emitia nota na minha conta gráfica. Era uma jogada fiscal legal na qual emitia 12% do ICMS e pagava somente 1%. Como lá em Alagoas não tinha porto, nossas operações eram efetuadas pelo porto de Suape no Recife. O percentual de 11% eu negociava com meus clientes”, explicou o empresário.

Surge a Capital Trade

Como empresário ativo e antenado, Gimenez acabou conhecendo outro empresário chinês, o qual era um dos chineses mais ricos do Brasil, dono de um grupo grande de malas, mochilas e bolsas femininas.

Segundo o brasileiro, seu sócio chinês tinha muito dinheiro, porém não tinha lastro no Brasil e precisava de uma empresa capitalizada para legitimar o negócio dele. “Então, me procurou propondo que eu fosse o dono das marcas dele. E eu o remunerava emitindo notas fiscais. Fomos crescendo e fazíamos 600 contêineres por ano na época. Todas marcas ficavam em meu nome. Criei até uma empresa para ele, para que a administração do negócio e as licenças de marca fossem feitas legalmente e o mesmo pudesse ser remunerado por estas empresas.  Crescemos muito. Depois de seis anos e meio, resolvi sair. Falei para meu sócio abrir uma empresa e fui passando o estoque para ele. Montei uma companhia e ele se tornou meu cliente na Capital Trade. Hoje, é um grupo que faz comigo mil contêineres por ano”, contou Gimenez.

Para atender esse cliente – e muitos outros – Gimenez fez uma sociedade com o ítalobrasileiro, Ricardo Vulcano, que atuava no mercado das Fundap, chamadas de Fundapianas, com regimes especiais no estado de Espírito Santo. Surgiu aí a Capital Trade. Como especialista nos chamados regimes especiais, Gimenez encaminhou sua nova companhia para Santa Catarina, a fim de usar o regime especial do estado. “Lá, tem uma logística muito boa. Há cinco portos – São Francisco do Sul, Imbituba, Itapoá, Navegantes e Itajaí – e fica perto de São Paulo. Os portos de Santa Catarina só perdem em movimento de carga para o porto de Santos. Crescemos muito nestes treze anos. Temos 80 funcionários em nossa estrutura própria em Santa Catarina e 40 em Alphaville e São Paulo. A Capital Trade é nº 1 do Estado e nº 2 do Brasil”, esclarece o empresário.

Alberto Suannes, Alice Milagre e Bruno Zurlini, equipe Alpha KG
Alberto Suannes, Alice Milagre e Bruno Zurlini, equipe Alpha KG

Irriquieto, Gimenez decidiu criar mais uma empresa no grupo, sob comando de sua atual esposa, dedicada a trabalhar com mercado têxtil e de confecção. “Em nove anos de atuação, a KG Inter é uma das empresas mais bem sucedidas do grupo. Como sou importador de tecidos da Coreia e da China, isto dá muita rentabilidade. Só trabalhamos com compra e venda e sob encomenda. Trago produtos para os coreanos e chineses e eles fazem a distribuição dos produtos para as grandes redes do varejo”, afirmou. “Há inteligência na logística operacional”, completou Alberto Suannes, gerente operacional da Alpha KG Company.

Entrada no mercado americano com Alpha KG Company

Depois de dominar o mercado brasileiro, Gimenez resolveu montar uma empresa americana, Alpha KG Company, juntamente com sua sócia Claudia Ferreira, com objetivo de replicar nos EUA seu sucesso no Brasil.

Entretanto, ele próprio admite ter quebrado a cara e explica os motivos: “No Brasil, trabalho com regimes especiais e redução de regimes de impostos, algo que me dá muita rentabilidade. Aqui nos EUA não existe incentivo, não existe limite para importação. Começamos a estudar como fazer. Há incentivos para montagem de indústrias, porém isto não serve para nós, pois somos um escritório de negócios”.

Com humildade, consultou alguns brasileiros que já viviam aqui há muito tempo e descobriu que eles usam os EUA como base e ganham dinheiro negociando pelo mundo. Muitos tentaram fazer negócios aqui e não ganharam dinheiro. Logo, percebeu que brigar nos EUA não é fácil.

Por ser resiliente, Gimenez alterou ligeiramente a rota de negócios e focou na China, país para onde vai há 12 anos, já foi sócio de empresários chineses e conhece bem a estrutura, assim como funciona o sistema da china. “Isto me deu uma base para entrar no mercado asiático. E o governo dá uma série de incentivos para empresas exportadoras. Com isto, consigo desenvolver produtos para meus clientes, sendo remunerado nos EUA através do Sourcing. Desta forma, peguei amigos brasileiros que não tinham o conhecimento de como desenvolver fornecedores e queriam posicionamento para trazer produtos com segurança. Foi então que criamos o sistema de sourcing, ou seja, desenvolvemos produtos para clientes brasileiros levar para o Brasil, com percentual de ganho sobre este desenvolvimento. Criamos um desenho no qual colocamos este cliente junto à fábrica, sem a presença da trading, tudo competitivo e pagando o preço real. Assim, o contrato de sourcing vai me dar o percentual de ganho nos EUA através de um contrato de prestação de serviços”, esclarece o empresário.

Suannes explica melhor a mecânica dessa operação: “Este produto é ganho por performance. Quando gerar lucro, a gente começa a ganhar dinheiro em cima disto. Abrimos quem é o fornecedor, não tem overprice nem nada. Nossa proposta é reduzir o custo do cliente na base para ganharmos na performance e, assim, justificar nosso ganho”.

Neste interim, surgiu a oportunidade por um empresário brasileiro de importar batatas fritas congeladas da Holanda e da Bélgica. Hoje, transportam 3.500 contêineres por ano para uma empresa no Brasil. Além de batatas, importam pescados e carne do Uruguai. “Esta empresa começou comigo com dois contêineres, agora é o segundo maior movimentador de batatas do mundo. Como amigo do dono, fiz uma proposta. Passamos a usar nossa estrutura daqui dos EUA associada aos prazos e os preços dele. Eu seria investidor ao indicar clientes para ele. Em cada contrato fechado, dividiríamos os lucros. Montamos esta operação, que já rendeu alguns contratos com empresas nos EUA”, destrincha Gimenez.  Agora, Alpha KG Company está em negociação uma das maiores distribuidoras de alimentos da Flórida.

Alice Milagre é responsável; pelo escritório da Aplha KG em Miami
Alice Milagre é responsável; pelo escritório da Aplha KG em Miami

Alpha KG Company é inteiramente bancada por Gimenez e sua socia. Apesar de estar há três anos em atividade, o empresário está consciente que a companhia começa agora a se justificar. Embora tenha uma estrutura enxuta, com Alice Milagre no comando, a companhia tem todo suporte do escritório da Capital Trade do Brasil.

Além do negócio com as batatas, o sourcing é a grande aposta da companhia. Bruno Zurlini, analista de compras internacional, ficou 40 dias na China para formar banco de dados. Ele explicou que, com implantação deste sistema, é possível ter uma análise exata dos fornecedores. “Antes, as empresas recorriam ao Ali Baba para encontrar os fornecedores. Este sistema é empírico e não permite saber com exatidão quem é de fato o fornecedor. Com nosso sistema de sourcing, temos condições de checar quem tem dívidas, quem usa trabalho escravo, quem é confiável, etc, enfim, quem está na lista negra do governo”, afirmou Zurlini.

Presença internacional

Como se vê, Gimenez está presente em vários estados do Brasil: Santa Catarina, São Paulo, Alagoas e Rondônia, e também tem escritórios na China, nos EUA e no Paraguai.

Ele insiste que sua inteligência tributária no Brasil consegue baratear custos através das suas importações. Por isto, tem levado as multinacionais para Santa Catarina. Ele se utiliza do regime especial e a operação começa e termina naquele estado. “Operar por Santa Catarina pode dar até 25% no valor final da importação a menos do que operar por São Paulo, fora o fato de como nossa obrigação de recolhimento de produtos importados é de 1,4%, temos 2,6% a negociar com clientes, melhorando ainda mais o valor final da importação.  Só que movimento R$330 milhões todo mês, opero 1,400 contêineres por mês, controlo o despacho aduaneiro é realizo 900 despachos por mês”, decodifica o arguto empresário.

Ele também é especialista na Lei Maquila usada no Paraguai. Isto é um grande negócio. O modal do Paraguai para o Brasil pode ser usado através do sistema rodoviário de Santa Catarina. “Posso usar o regime especial nas maquiladoras. A Lei Maquila determina que 60% dos insumos podem ser importados na confecção de um produto, porém 40% devem ser insumos fabricados no Paraguai. Isto garante o Certificado de Origem. Com este documento, você ganha isenção de importação quando vende para outros países. Há ainda a Lei 6090, que concede isenção total de impostos a qualquer maquinário usado que entra no Paraguai, por ser considerado como gerador de negócios industriais”, diz Gimenez.

Ele também tem escritório no Paraguai onde consegue obter boa rentabilidade para as fábricas que indica. “Montamos estrutura para nossos amigos lá. Sou amigo do presidente do Paraguai, atuo nas Câmaras de Comércio e Indústria, conheço todo tipo de regimes especiais. Assim, consigo fazer negócios entre as empresas. Atuo em todo Mercosul, principalmente no Paraguai”, afirma Gimenez.

Além de distribuir, o empresário também está no setor de desenvolvimento de produtos. Bruno Zurlini está indo para Paquistão e Egito a fim de encontrar fornecedores de copos de vidro para grandes redes atacadistas do Brasil.

Segundo Suannes, “também temos como objetivo desenvolver produtos aqui nos EUA. E também entrar firme não só na China, mas, sim, atender o mercado asiático, como Coreia, Japão e também Oceania. Algo que, aliás, já fazemos. Temos contatos fortes também na Europa. Já temos clientes brasileiros comprando produtos americanos. Queremos expandir isto. Nossa vantagem é estar aqui e operar como empresa americana”.

Para finalizar, Gimenez está criando plataformas financeiras aqui nos EUA. A proposta é garantir injeção financeira para empresas brasileiras que não querem pagar à vista e desejam financiamento. “Tenho uma seguradora que avalia o crédito das companhias tomadoras de empréstimo. Caso o cliente não pague, a seguradora briga com cliente e tem 50 dias para me pagar de volta. Assim, meu risco é zero. Os bancos americanos me permitem emprestar 95% do meu capital e capto dinheiro no mercado americano com juros entre 1,5 a 3% ao ano. Como sou conservador, minhas aplicações geram entre 4 a 6% ao ano. Assim, atendo meus clientes oferecendo crédito de 120 dias e eles me pagam juros de 8 a 10% ao ano. Para atender clientes de pequeno e médio porte que querem comprar produtos e ter dinheiro para investir e fôlego financeiro. Em comparação com os juros pagos no Brasil, acaba sendo um bom negócio para eles”, finaliza o multifacetado empresário.

Nesse momento, ele diz estar afinando sua equipe. “Durante estes anos, aprendi a delegar. E sempre espero que meus funcionários sejam melhores do que eu. Se forem piores ou iguais a mim, não preciso. Eu mesmo resolvo”, brincou José Carlos Gimenez.

O duro mesmo é encontrar gente tão antenada como ele…