Paulo Dourado*

Estamos vivendo um momento único com a pandemia covid-19.  Isso criou na economia um choque de oferta e um choque de demanda, com uma forte recessão econômica causada por um fator exógeno. A quarentena forçada e o isolamento, levando à necessidade de se trabalhar de casa,  aceleraram o processo de transição que já estava previsto nas relações de produção causado pela utilização das novas tecnologias de transmissão de dados e de imagens.

Estamos vivendo um período em que o antigo modelo clássico de escritório com interação pessoal  convivia  ao lado de um ambiente moderno que permitia a realização de tarefas e a comunicação de forma remota. Por questões culturais em que a ideia de produção está associada à supervisão física dos empregados, como um resquício da produção industrial do século XIX e XX, em que as fábricas precisavam da supervisão física para a manutenção e o crescimento da produtividade, sendo essa associada à uma base de tecnologia eletromecânica, eram mantidos os mesmos ambientes nos escritórios, sendo estes cercados de tecnologia digital.

Com o desenvolvimento dessa tecnologia, com a  transmissão de dados, a obtenção de conexões onlines, e o desenvolvimento da internet;  tecnicamente não se faz mais necessário a presença física para que a produção continue sendo mantida ou mesmo melhorada.  A existência dos escritórios a partir desse momento se dá por essa questão cultural ainda ligada a esse período anterior de produção industrial baseado na tecnologia eletromecânica. 

A pandemia covid-19 que obrigou  o esvaziamento dos escritórios e o trabalho à distância.  Colocou o novo cenário que já estava pronto,  na sua efetivação e consolidação, observando que o trabalho remoto nas residências pode efetivamente substituir o trabalho no escritório.

Esse cenário mostrou para as empresas oportunidades em três frentes,  sendo a primeira a constatação de que a produtividade pode ser mantida ou até mesmo aumentada. 

A tecnologia permitindo que o mesmo trabalho feito no computador no escritório possa ser feito remotamente não impacta na quantidade e na qualidade das tarefas executadas. A própria produtividade pode ser aumentada, pois o tempo de transporte entre casa e trabalho pode ser incorporado à produção e, com isso, estendendo o tempo dedicado ao trabalho. 

O segundo aspecto está na redução de despesas operacionais,  tais como economia nos aluguéis de escritório,  da manutenção,  nos suprimentos, nos recursos humanos dedicados exclusivamente à manutenção, nos aluguéis de estacionamentos  e outros gastos ligados aos escritórios.

O terceiro fator seria o de relacionamento pessoal, já que o dia a dia dos escritórios proporcionam uma série de distrações que podem impactar negativamente na produção. 

Pelo lado do empregado, existem vantagens econômicas e oportunidades de se estabelecer um melhor equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.  Economia no gasto de gasolina, eliminação do stress no trânsito, tempo gasto de transporte entre trabalho e casa,  economia em gastos de restaurantes, assim como mais objetividade na execução das tarefas,  pois antes, pelo fato de ter que estar oito horas no trabalho, as tarefas poderiam ser postergadas. Já pelo contrário, estando em casa, torna-se melhor executar a tarefa imediatamente, aumentando a flexibilidade no uso do tempo disponível.

Muitas pessoas dizem que a pandemia poderá ter um impacto na mudança do ser humano.  Realmente não acredito que isso possa acontecer,  até porque historicamente outras situações mais impactantes em termos de vidas humanas ocorreram sem causar grandes mudanças nas atitudes dos seres humanos.  No entanto, no processo de produção, oportunidades econômicas serão efetivadas e consolidadas, já que representam possibilidades de incremento na lucratividade das empresas. 

Constatado que existem economias operacionais, sem impactar negativamente a produtividade, esse estilo de trabalho será cada vez mais utilizado pelas empresas como opção normal de produção, ficando assim o escritório como opção alternativa. 

Tal atitude impactará o mercado de compra, venda e de aluguéis de escritórios, que deverá ter uma redução na demanda e com possível queda de preços. Haverá também impacto nos restaurantes que servem funcionários de escritórios, e observarão sua demanda reduzida. Também haverá menos demanda por gasolina já que veremos uma redução no número de carros que se dirige de casa para escritório e do escritório para casa, com menor utilização dos carros nessas vias. Isso resultará também numa menor demanda em manutenção de carros assim como de autopeças. 

O homem está voltando para caverna, sendo que dessa vez uma caverna cheia de aparatos eletrônicos em que ele estará conectado com o mundo. Os Novos Tempos chegaram e o covid-19 acelerou essa chegada.

*Paulo Dourado, economista radicado na Flórida, é professor na St. Thomas University e Miami-Dade College.