Empoderar e capacitar as mulheres para participar plenamente na economia moderna acenderia a chama do crescimento global. Apenas a título de exercício, a Bloomberg Economics estimou o aumento na produção econômica mundial se as oportunidades de trabalho e educação disponíveis para as mulheres se equiparassem com as dos homens:

  • Convergência nacional — a eliminação da lacuna de anos de escolaridade e participação na força de trabalho entre homens e mulheres no mesmo país resultaria em um acréscimo aproximado de US$ 20 trilhões ao PIB global em 2050 em relação a um cenário base de desigualdade de gênero persistente.
    Em um cenário menos ambicioso, estimamos o que aconteceria se o acesso das mulheres ao emprego e à educação convergisse com o de países que compartilham características sociais comuns, mas que já alcançaram um nível mais elevado de igualdade de gênero. Esta estimativa mais modesta ainda acrescentaria cerca de US$ 17 trilhões ao PIB de 2050.
  • Estes números não são previsões. Em muitos países, as barreiras à educação e ao emprego das mulheres estão profundamente enraizadas. Ao contrário, são cálculos que demonstram os enormes custos da discriminação de gênero, e os enormes benefícios se for combatida.
  • Nossas análises mostram que países, como a Índia, o Paquistão, o Egito, a Turquia e a Nigéria têm as maiores barreiras à participação das mulheres na economia, e os maiores ganhos potenciais, se estas barreiras puderem ser quebradas. Para a Índia, o aumento do PIB de 2050 estaria acima de 30%.
    As prioridades políticas variam de país para país, mas aumentar o acesso das mulheres à educação pós-ensino médio, fornecer serviços subsidiados de cuidado infantil e ter regulamentos para fomentar e proteger os contratos de trabalho flexíveis têm demonstrado eficácia na melhoria dos resultados educacionais e de emprego para as mulheres.

Mais funcionárias + Funcionárias mais inteligentes = Aumento da prosperidade
Nos livros sobre economia, o potencial de crescimento é determinado pelo capital humano (quantidade e qualidade dos trabalhadores), pelo capital físico (tudo, desde fábricas até a rede elétrica) e pela produtividade (como os países mais avançados estão se saindo no quesito “montar o quebra-cabeças”). As barreiras à educação e à participação na força de trabalho para as mulheres reduzem o capital humano e, assim, pesam no potencial de crescimento.

Qual o tamanho das barreiras? Há grandes variações entre os países, mas tomados em conjunto os números são alarmantes:

  • De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2020, apenas 58,4% das mulheres entre 25 a 64 anos participaram da força de trabalho comparado a mais de 90% dos homens na mesma faixa etária. No Oriente Médio e no Norte da África, a lacuna é ainda maior.
  • A disparidade na educação é menos acentuada. De fato, nos países da OCDE, as mulheres têm um pouco mais de formação do que os homens. No entanto, em países em desenvolvimento, a média de anos de escolaridade das mulheres é inferior à dos homens — o que indica que há espaço para melhorias.

Três cenários para a força do trabalho até 2050

Quais são os grandes benefícios da redução ou eliminação das diferenças nas áreas de emprego e educação para as mulheres? Consideramos três cenários até 2050:

  • Caso base. Se for mantida a tendência atual da participação na força de trabalho e dos níveis de educação das mulheres, a participação do grupo na faixa entre 25 e 64 deve atingir 56,4% em 2050; uma queda em relação a 58,4% em 2020. O declínio é consistente com as tendências demográficas e estruturais. A média dos anos de escolaridade aumentaria para 12,4 anos em 2050 em relação a 10,5 anos em 2020. Neste cenário, o crescimento global seria 2,8% ao ano, em média.
  • Convergência regional. Se os países em desenvolvimento se equipararem ao nível dos países líderes regionais, a participação das mulheres entre 25 e 64 anos na força de trabalho alcançará 75%, e a média de escolaridade chegará a 13 anos até 2050. Este aumento daria um impulso no crescimento global, que alcançaria 3% ao ano, o que acrescentaria cerca de US$ 17 trilhões ao PIB de 2050 em relação ao básico. Os maiores vencedores seriam Nigéria e Turquia, cujas projeções do PIB em 2050 seriam 18% e 15% acima da linha base, respectivamente.
  • Convergência nacional. Se o envolvimento das mulheres na economia se equiparar ao dos homens no mesmo país, a participação das mulheres na força de trabalho aumentará para cerca de 88% e a média de escolaridade para mais de 12 anos até 2050. Isto elevaria a taxa de crescimento global para 3,1%, em média, e adicionaria até US$ 20 trilhões ao PIB de 2050 em relação à base. Os maiores vencedores seriam Índia e Paquistão, cujas projeções do PIB em 2050 seriam 30% e 19% acima da linha base, respectivamente.
  •  
  • PIB global: três cenários
  •  
  • Em geral, é a crescente participação das mulheres na força de trabalho que oferece o maior volume dos lucros. Os níveis de educação das mulheres na maioria dos países da OCDE já são tão altos ou maiores que os homens. Em muitos países em desenvolvimento, há mais amplitude para impulsionar a oportunidade de educação para mulheres. Mas, é na participação na força de trabalho que está a maior diferença entre os gêneros e onde o progresso traria mais benefícios.

Será que nossos cenários de convergência regional e nacional são plausíveis? Progressos significativos em alguns países nos últimos 30 anos mostram o quanto pode ser alcançado. De 1990 a 2020, países, como a Espanha, o Chile e o Peru, viram um aumento impressionante na participação das mulheres na força de trabalho para o grupo de 25 a 64 anos. Ainda assim, para os países mais atrasados, o nivelamento exigiria um salto ainda maior.

Apresentamos nossa análise como um exercício sobre o custo da discriminação e os benefícios de combatê-la, e não como uma projeção futura.

Soluções via políticas

Uma convergência nacional, ou regional, completa, pode não ser uma perspectiva realista. Mas avançar mesmo uma parte do caminho já traria benefícios imensos. Quais são as políticas necessárias para colocar as oportunidades de trabalho e educação disponíveis para as mulheres em uma trajetória crescente?

As prioridades variam de país para país. Em geral, aumentar o acesso das mulheres à educação pós-ensino médio, fornecer serviços subsidiados de cuidado infantil, criar leis para igualdade de gênero no trabalho, fomentar contratos de trabalho flexíveis e — em países em desenvolvimento — subsidiar a compra de aparelhos que facilitam o trabalho manual, como máquinas de lavar, traria um grande impulso.

O índice Women’s Workplace Equality oferece uma medida de progresso entre países até hoje. Uma breve observação dos dados revela uma gama de oportunidades considerável para melhorias:

  • Em 10% dos países, não há educação primária gratuita e obrigatória. Em 27%, não há serviços públicos de assistência infantil. Em ambos os casos, a responsabilidade pelo cuidado às crianças é, geralmente, das mulheres — o que limita as opções de emprego.
  • Em 60% dos países, não há uma lei que obrigue a igualdade salarial — o que pesa no potencial de renda das mulheres e reduz o incentivo para entrar na força de trabalho.
  • Em 65% dos países, não há políticas, ou são inadequadas, para impulsionar o acesso das mulheres ao crédito — o que cria uma barreira para empreendimentos.

Há diferenças no progresso da igualdade de gênero entre regiões

O índice também mostra quais países e regiões mais avançaram e quais têm um longo caminho pela frente.

Obviamente, o Oriente Médio, o Sul da Ásia e a África Sub-Saariana ficam muito para trás. Sob uma perspectiva positiva, a correlação entre os países que têm políticas adequadas e os países onde os resultados educacionais e de emprego das mulheres são mais altos é um lembrete de que, com as políticas certas, o progresso é extremamente alcançável.

Uma ressalva importante é que nossa análise aborda apenas o lado de oferta da economia. Para que o PIB aumente, não basta que as mulheres tenham mais educação e oportunidades para participar da força de trabalho, também deve haver uma demanda por mais trabalhadores. Se isto não acontecer — talvez porque os avanços na automação eliminam postos de trabalho — o resultado seria mais desemprego, e não um crescimento maior. Isto ressalta a importância de considerar as políticas de igualdade de gênero em conjunto com uma reformulação mais ampla para fazer com que os mercados de trabalho funcionem.

Metodologia
Nosso exercício é baseado em estimativas de país por país, para cada uma das 36 economias cobertas pela Bloomberg Economics — que representam cerca de 84% do PIB mundial. Todos os outros países são considerados um único bloco.

  • Para o caso base, foram utilizadas estimativas internas de crescimento potencial. Para a educação, foram utilizadas as projeções Barro-Lee para a média de anos de escolaridade. Para a participação laboral, foram utilizadas as projeções da OIT até 2030 e extrapoladas por uma suavização exponencial até 2050. Para a participação laboral no PIB, foram utilizados os dados Penn World Table 9.1.
  • Para os cenários alternativos, o foco foi a educação e a participação do mercado de trabalho de mulheres entre 25 e 64 anos — o grupo com maior potencial de ser beneficiado nos próximos 30 anos se as políticas de igualdade de gênero forem adotadas a curto prazo. As hipóteses para todos os outros grupos de idade/gênero são as mesmas que as do cenário base.
  • O cenário de convergência nacional presume que, em cada país, a participação laboral e o acesso à educação para as mulheres serão iguais aos dos homens até 2050. Em países onde as projeções do caso base já apontam uma diferença de gênero em favor das mulheres, as estimativas-base são mantidas.
  • O cenário de convergência regional presume que, para os países de um grupo regional, os níveis de participação das mulheres relativos a trabalho e educação alcançarão os níveis máximos observados neste grupo, até 2050. Foram selecionados benchmarks regionais dos países mais representativos em cada região. Para os casos em que as projeções de um determinado país até 2050 excedem o valor máximo registrado em 2020, a projeção do país é mantida. O agrupamento de países segue a classificação do Banco Mundial, exceto por algumas reclassificações que julgamos mais adequadas considerando as similaridades culturais/estruturais.